

As principais características dessas espécies são possuir uma cabeça larga e robusta onde se apóia um bico forte, alto e curvo especializado em quebrar e descascar sementes. Para ajudar na manipulação dessas sementes, eles ainda possuem uma musculatura na mandíbula e na língua muito desenvolvidas. Possuem pés curtos, mas muito articuláveis, que além de sustentarem o corpo dos animais, auxiliam na manipulação dos alimentos que consomem. Tanto os machos como as fêmeas possuem lindas plumagens com cores exuberantes, conferindo-lhes uma beleza inigualável. Usualmente os sexos são bem parecidos.
Esta família é constituída de 78 gêneros (divisão dentro da família), onde são distribuídas 332 espécies de psitacídeos. Estudos realizados em 1994 mostram que 86 dessas espécies estão criticamente muito próximas da extinção e outras 36 ameaçadas de extinguirem se medidas não forem tomadas. Só no Brasil vivem cerca de 84 espécies distribuídas em 24 gêneros, segundo o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO).
Segundo União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN), a extinção é uma ameaça para 12.259 espécies de animais e plantas, de todo o planeta, e já se transformou em realidade em 762 casos. Outras 58 espécies, já não são mais encontradas em ambiente silvestres, sendo reproduzidas ou conservadas apenas em cativeiro. O Brasil é o quarto país no ranking de animais que estão em perigo de extinção, pois tem 282 animais em risco de extinção, contra 859 dos Estados Unidos, 527 da Austrália e 411 da Indonésia.
Araras e papagaios são exemplares dos mais impressionantes da avifauna tropical. Exatamente por serem belos, com plumagens coloridas, se adaptarem facilmente ao cativeiro, possuírem capacidade de imitar a fala e interagir bem com a população humana, os Psitacídeos são um grupo dos mais ameaçados do mundo. O interesse humano pelas araras é tão antigo que há muitos séculos elas já eram capturadas para servirem como animais de estimação e utilização de suas penas como ornamento. Por isso, o Projeto Arara Azul tem utilizado a arara-azul como espécie bandeira para a conservação.
LISTA DAS ESPÉCIES DE PSITACÍDEOS AMEAÇADOS DO BRASIL
No Brasil, 16 espécies de Psittacideos estão vulneráveis ou ameaçadas de extinção, sendo que duas espécies estão em condição pior: a arara-azul-pequena desaparecida nos últimos 50 anos e considerada extinta e a ararinha-azul, extinta na natureza, cujo último exemplar desapareceu em outubro de 2000, restando hoje em torno de 60 indivíduos em cativeiro espalhados pelo mundo.
Do gênero Ara, o Brasil possui quatro representantes que são as duas araras-vermelhas, (A. chloropterus e A. macao), a arara-canindé (A. araraúna) e a maracanã-guaçu (A. severus). São encontradas mais quatro espécies consideradas grandes araras e que pertencem a esse gênero: Ara ambígua (Buffon`s Macaw) que ocorre na América Central em Honduras, Nicaragua, Costa Rica e Panamá com uma sub-espécie guayaquilensis que ocorre na Colômbia e Equador; Ara militaris (Military Macaw) que ocorre desde o México até norte da Bolívia, com três sub-espécies: militaris, boliviana, mexicana; Ara glaucogularis (Blue-throated Macaw) e Ara rubrogenys (Red-fronted-Macaw) que só ocorrem na Bolívia.
Completam a lista das araras brasileiras, citadas abaixo, mais cinco espécies, pertencentes a três gêneros, que são consideradas as araras pequenas.
As araras brasileiras estão distribuídas em 6 gêneros diferentes, são eles:
Anodorhynchus: com 3 espécies: A. hyacinthinus, A. leari e A. glaucus.
Cyanopsitta: 1 espécie C. spixii.
Ara: com 4 espécies: A. ararauna, A. chloropterus, A. macao e A. severus.
Orthopsittaca: com 1 espécie: O. manilata.
Primolius: com 3 espécies: P. maracanã, P. auricollis e P. couloni.
Diopsittaca: com 1 espécie: D. nobilis.
Será incluída também a espécie Cyanopsitta spixii, por ser popularmente conhecida no Brasil como ararinha-azul. Embora esta espécie esteja, atualmente, extinta na natureza, ela vem sendo reproduzida em cativeiro para futura reintrodução. A ararinha-azul e a arara-azul-de-lear são genuinamente brasileiras, pois sua distribuição é restrita ao Brasil, no estado da Bahia.
A alimentação geralmente é feita em grupos, como forma de aumentar a proteção. Sempre há um indivíduo de sentinela que, a qualquer barulho ou movimento estranho, dá um grito e todas as araras saem voando. Os horários de forrageamento são mais frequentes no início da manhã, entre 06:00 e 10:00 horas, e no final da tarde, entre 14:30 e 17:00 horas.
São encontradas em bandos de 10 a 30 araras, especialmente nas áreas de alimentação e nos locais denominados dormitórios (locais para descansar e dormir), como também em pares reprodutivos. Quando esses bandos são observados podemos verificar a alta socialização (interação) entre os indivíduos. É muito comum observarmos as araras vocalizando (parece que conversam umas com as outras), executam preening (um indivíduo coçando ou fazendo limpeza de penas no outro), brincam umas com as outras e com os galhos, flores, folhas das árvores que estão pousadas. Já na época reprodutiva é possível observar os casais alimentando-se e voando juntos, geralmente são fiéis ao parceiro e dividem a tarefa de cuidar dos ovos e filhotes.
SÍTIOS DE NIDIFICAÇÃO: As araras-azuis não parecem selecionar ninhos com características padronizadas, como forma e tamanho das cavidades, orientação das aberturas, etc, mas mostram preferência por árvores que se destacam da vegetação, localizadas nas bordas de cordilheiras ou capões e com cavidades mais acessíveis.
Na região do Pantanal, 90% dos ninhos são encontrados nas árvores de manduvi. Essas árvores de tronco grosso e cerne (interior) macio, facilita a formação do ninho. As araras-azuis são escavadores secundários. Elas aproveitam pequenas cavidades abertas por pica-paus, cupins ou fungos, como também locais onde houve a quebra de um galho para aumentar a cavidade e depois forrando com serragem, constroem o seu ninho. Por esta característica elas podem ser chamadas de engenheiras ambientais. Ao fazerem os seus ninhos, as araras acabam fazendo ninhos para outras espécies como tucanos, gaviões, corujas, pato-do-mato e outros. No entorno do Pantanal, na região de Aquidauana e Rio Negro e no Piauí, na Chapada das Mangabeiras foram encontrados ninhos de araras-azuis nas falhas de paredões rochosos. No Pantanal tem aceitado e se reproduzido nos ninhos artificiais, confeccionados em caixa de madeira, pelo Projeto Arara Azul.
A maioria dos ninhos podem ser reutilizados de ano para ano. Elas sempre forram a base do ninho com serragem que beliscam da própria árvore. Isto faz com que a base dos ninhos, fique cada vez mais funda. O Projeto já encontrou ninho cuja base estava distante a quatro metros da abertura. Nesse caso, o filhote não conseguiu sair, ficando preso dentro do ninho durante um ano, sendo alimentado pelos pais até que o ninho foi manejado, com a abertura de uma janela mais próxima da base do ninho. O filhote foi retirado e como estava com as penas da cauda e das asas danificadas, não podendo voar, foi levado para o CRAS – Centro de Reabilitação em Campo Grande até que se recuperasse.
REPRODUÇÃO: após a formação do casal, passam a maior parte do tempo juntos dividindo todas as tarefas. Em julho começam a inspecionar e reformar as cavidades, para o período de reprodução que está começando. O pico de reprodução pode variar, mas em geral acontece de setembro a outubro, sendo que a criação dos filhotes pode se estender até janeiro ou fevereiro do ano seguinte. Nesta época é comum ver a disputa por ninhos entre as araras-azuis e também com outras espécies. Cerca de outras 17 espécies ocupam ninhos artificiais desenvolvidos pelo Projeto Arara Azul. A taxa de reprodução é baixa e alguns casais só se reproduzem a cada dois anos.
A fêmea costuma botar de 1 a 3 ovos em dias diferentes, a média encontrada é de 2 ovos. É ela que fica no ninho, chocando os ovos, sendo nesse período alimentada pelo macho. O período de incubação do ovo é de 28 a 30 dias. Estudos mostram que a taxa de eclosão do ovo (nascimento do filhote) é de 90%. Os ovos podem ser predados por caracarás, quatis, tucanos, gralhas e gambás, e a taxa de predação varia de 20 a 40%.
Os filhotes nascem em média com 31,6 gramas e 82,7 mm. Nessa fase, os pais saem para buscar alimento para que os filhotes cresçam e ganhe peso rapidamente. Até 45 dias de vida, os filhotes estão sujeitos a predação por formigas, tucanos e gaviões. Entretanto, o maior índice de mortalidade, ocorre até o quinto dia de vida do segundo filhote. Quando a diferença de idade entre o primeiro e o segundo filhote é maior que cinco dias, geralmente, o segundo filhote não sobrevive.
Aproximadamente com 107 dias de vida (3 meses), os filhotes voam. Não voltam mais para dentro dos ninhos mas podem ficar nas proximidades ou voar para longe acompanhado os pais. Nessa fase ainda são alimentados pelos pais, mas também é quando começa o aprendizado dos filhotes. Aprendem onde e o que comer, onde podem dormir, a se defender de predadores. A partir dos 9-10 meses de vida, os filhotes já estão aptos a se alimentarem sozinhos, mas alguns ainda acompanham os pais por 12 ou 18 meses, quando então eles entram para os bandos de jovens e deixam os pais livres para se reproduzirem novamente. Somente com 7-9 anos de vida é que esses filhotes iniciarão a sua vida reprodutiva, formando casais e criando a sua família.
Para exemplificar a baixa taxa reprodutiva das araras-azuis, dos 106 ninhos naturais monitorados em 1997, 70% (N=74) foram ativos 50 casais botaram ovos, dos quais 09 foram predados. O restante produziu 57 filhotes dos quais 44 voaram com sucesso.
TAMANHO DA POPULAÇÃO: É impossível saber quantas araras havia originalmente, mas sabe-se que era uma espécie abundante no início do século. Infelizmente, hoje devem existir mais araras-azuis em cativeiro que em vida livre. Atualmente indícios da ocorrência de araras-azuis na natureza são encontrados em três locais: Pantanal, “Gerais” ou Brasil Central (nos estados de TO, GO, PI, MA e BA) e norte do Brasil.
Resultados de alguns levantamentos de campo totalizam uma população de aproximadamente 6500 indivíduos assim distribuídos: 1) Pantanal com cerca de 5000 araras é a que se encontra em melhor situação na natureza. No Mato Grosso do Sul Guedes (2003) estima 4000 araras sendo que a população tem aumentado e expandido. No Mato Grosso, trabalho de Pinho (1998) estima cerca de 800 indivíduos. Na Bolívia tinha praticamente acabado e voltou a aparecer, com cerca de 150-200 indivíduos, segundo Dammermann (2000, comunicação pessoal e relatório não publicado). No Paraguai só há relatos de alimentação na região vizinha ao Pantanal Brasileiro.
No Brasil Central com cerca de 800-1000 araras-azuis, segundo levantamento realizado por Bianchi et al (2002). Esta população é uma das mais críticas no momento, pois é afetada pelo tráfico, em especial no Sul do Piauí e Maranhão. Retiram ovos, filhotes e adultos e há um avanço da fronteira agrícola com retirada da vegetação nativa para plantio de soja.
Na região Norte do Brasil, aproximadamente 500 araras-azuis, incluindo os estados do Amazonas e Pará, podendo haver uma lacuna entre as populações do dois estados. Nesta região as araras-azuis não têm sido estudadas nos últimos 20 anos. Levantamento mais recente foi realizado por Sherer-Neto (2004, comunicação pessoal). Até recentemente, as araras eram afetadas pela coleta de penas para confecção de artesanato indígena e pelo desmatamento para pecuária e agricultura. As referências completas destas bibliografias são encontradas em Guedes (2004), artigos complets em publicações técnicas em pdf.
AMEAÇAS ENCONTRADAS PELA ESPÉCIE: os principais fatores que levaram as araras-azuis a ameaça de extinção foram: 1) a captura ilegal para o comércio nacional e internacional de aves de estimação, que foi intensa até a década de 80 (ovos, filhotes, adultos); 2) a destruição do habitat (perda, fragmentação, descaracterização) principalmente com a implantação de pastagem cultivada no Pantanal, agricultura e colonização em outras regiões; 3) a caça e coleta de penas para artesanato indígena (no Brasil está proibida desde 2005, sendo permitido apenas para cerimônias e outros usos dentro das reservas indígenas). A estes fatores, acrescentam-se populações pequenas, baixa taxa reprodutiva e especialização na dieta e no habitat.
O TRÁFICO DE ARARAS: Até a década de 80 estima-se que mais de 10 mil araras-azuis foram retiradas da natureza. Hoje, o tráfico de araras-azuis diminuiu bastante, mas ainda continua. No Mato Grosso do Sul se não acabou reduziu muito, graças ao trabalho de divulgação e envolvimento da população efetuado pelo Projeto Arara Azul.
Entretanto, o tráfico continua intenso em outras regiões do Brasil. No período de 2004 a 2006 cerca de 60 filhotes de araras-azuis foram retirados dos ninhos para o comércio de animais silvestres. Só para se ter uma idéia, desses dez filhotes com menos de três meses de idade foram apreendidos pela Polícia Federal em Corumbá. O destino era a Bolívia, Peru e posteriormente outros países. Os filhotes estavam anilhados porque filhotes nascidos em cativeiro recebem, com menos de 20 dias, uma anilha fechada numerada a qual é controlada pelo IBAMA junto aos criadores. Por isso poderiam receber um certificado de “nascido em cativeiro” o que daria aspecto legal à comercialização. Só que as anilhas eram falsificadas. Assim que a equipe do Projeto Arara Azul viu os filhotes, verificou que eles não eram do Pantanal, informação esta que foi posteriormente confirmada pelos exames realizados pelo Departamento de Genética do IB/USP. Esses filhotes viajaram mais de 1500 km pelas rodovias do Brasil e apreensão só foi possível, porque a população está mais atenta, como resultado do trabalho de educação ambiental, divulgação e envolvimento da população local que fizeram a denúncia.
COMITÊ PARA CONSERVAÇÃO E MANEJO: criado pela Portaria nº 375 de 05 de maio de 2003, o Comitê para Conservação e Manejo da Arara-Azul-Grande Anodorhynchus hyacinthinus.
O Comitê é um grupo assessor do IBAMA, que trata do manejo “in situ” (na natureza) e “ex-situ” (em cativeiro) de Anodorhynchus hyacinthinus, integrando pesquisadores e instituições que exercem atividades relacionadas com a espécie e seus hábitats. O Comitê é composto pelo Coordenador Geral de Fauna, Coordenador de Proteção de Espécies da Fauna e Chefe do Centro de Pesquisas para Conservação das Aves Silvestres, todos do IBAMA, mais um representante da Sociedade de Zoológicos do Brasil (SZB), um representante da Sociedade Brasileira de Ornitologia (SOB) e técnicos especializados como Neiva M.R. Guedes, Pedro Scherer Neto, Yara de Melo Barros, Cristina Y. Miyaki. O Comitê é presidido pelo Coordenador Geral de Fauna/IBAMA, sendo que as atividades de campo relacionadas à espécie são coordenadas por Neiva M. R. Guedes.
O comitê tem por objetivo o estabelecimento de estratégias para estudo, manejo e conservação da arara-azul-grande Anodorhynchus hyacinthinus objetivando alcançar o estabelecimento de populações geneticamente viáveis desta espécie. Propor ao IBAMA o Plano de Ação para a conservação da espécie, que embasará a atuação do Instituto no acompanhamento da implementação das atividades previstas. O comitê se reúne pelo menos uma vez, a cada dois anos.
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