

Em fevereiro deste ano foi publicado um artigo na Scientific Reports, da Nature, sobre a mudança recente no ritmo dos impactos antrópicos no oceano. Esse estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia e da Universidade de Stanford. O estudo revelou que impactos resultantes de atividades antrópicas têm causado grandes mudanças no oceano, como a degradação ou até mesmo colapso de ecossistemas. Está havendo o declínio de populações de diversas espécies marinhas devido a estresses causados por atividades humanas. A partir disso, os pesquisadores afirmam ser emergencial o entendimento desses impactos, quais são, como acontecem, quão rápidas são suas consequências e quais as mudanças que ocorrem devido à acumulação desses impactos. Se os oceanos morrem, todo o planeta entra em desequilíbrio de ecossistemas, o que é prejudicial para toda as espécies vivas, incluindo a humana.
Os impactos humanos cumulativos são impactos resultantes de uma ação antrópica que se soma a ações do passado, presente e futuro. Assim, se acumulam no tempo e no espaço. Essa combinação de efeitos resulta em um ou diversos impactos, podendo causar uma grande degradação ambiental com o passar do tempo. Para obter o ritmo de mudanças causadas pelos impactos humanos cumulativos, os pesquisadores calcularam e mapearam o impacto cumulativo de 14 estressores ambientais advindos de atividades humanas (incluindo mudanças climáticas, pesca, pressões vindas do uso da terra e outras atividades comerciais) em 21 ecossistemas marinhos diferentes ao redor do planeta, de 2003 a 2013.
Mapa mundi da mudança dos impactos humanos cumulativos no oceano de 2003 a 2013. Há uma escala numérica representada por cores no mapa, que varia de cores frias a cores quentes. Quanto mais quente as cores representadas nas localidades, maior a mudança dos impactos humanos cumulativos. Essas cores são maiores nos oceanos Atlântico Equatorial, Índico e Pacífico Subequatorial.
Os maiores aumentos dos impactos humanos cumulativos ocorreram em 3,6% do oceano: Mar Negro, Oceano Atlântico tropical, noroeste temperado do Oceano Pacífico e regiões subtropicais dos Oceanos Índico, Atlântico e Pacífico. Mapa mundi dos impactos humanos cumulativos no oceano. Há uma escala numérica representada por cores no mapa, que varia de cores frias a cores quentes. Quanto mais quente as cores representadas nas localidades, maior a mudança dos impactos humanos cumulativos. Essas cores são maiores no Oceano Atlântico, regiões tropicais do Oceano Pacífico e cores mais frias são maiores no Oceano Pacífico Tropical.
Locais onde ocorre um crescimento mais rápido dos impactos humanos cumulativos são os mesmos que apresentam maiores valores absolutos desses impactos (Mar Negro, noroeste do Mar Mediterrâneo, litoral nordeste do Canadá, sul do Oceano Atlântico e sudoeste da Austrália). São as regiões de maior probabilidade de colapso nos ecossistemas marinhos, como já acontece no Mar Negro.
Regiões com alto impacto humano cumulativo, mas que têm a taxa de mudança decrescendo, estão localizadas em latitudes mais ao norte do Oceano Atlântico. Áreas com baixo impacto humano cumulativo que também têm a taxa de mudança decrescendo (Oceano Pacífico central, Oceano Antártico e partes do Oceano Ártico Russo), podem ser regiões de extrema relevância por poderem desenvolver papel de refúgio para espécies marinhas no futuro.
Em padrões globais, 85% da costa de 220 países e territórios têm uma média de aumento das taxas de impactos humanos cumulativos, sendo que 10% apresentam uma grande rapidez no ritmo dessas mudanças. Os maiores aumentos ocorreram em ilhas do Caribe e latitudes médias do Oceano Índico, sendo que a Ilha da Reunião (Réunion) – departamento francês localizado no Oceano Índico – tem o aumento mais rápido do ritmo de impactos humanos cumulativos.
Um aumento significativo das pressões ambientais é alarmante. Além do aumento da temperatura e da superfície do mar, outros estressores, que geralmente funcionam nas escalas locais, estão aumentando significativamente em grande parte do mundo. Além disso, o gerenciamento atual nessas escalas é pouco para diminuir o ritmo de mudanças crescentes. Embora as poluições química e de nutrientes orgânicos causadas pelo uso da terra pareçam ter diminuído, contribuindo com o declínio desses impactos, a maioria dos países apresentou taxas crescentes de acidificação do oceano, transporte marítimo, poluição luminosa e impactos humanos diretos.
As pressões totais de pesca diminuíram em muitos países, com 53% deles sofrendo declínio em 3 ou mais das 5 categorias de pressões da pesca comercial. Quedas particularmente grandes foram observadas em Cingapura, Eslovênia e Coréia do Sul. Os ecossistemas costeiros, em particular os recifes de coral e manguezais, tiveram o ritmo mais rápido de aumento dos impactos humanos cumulativos, além de apresentarem o maior valor absoluto médio desses impactos. Esses ecossistemas costeiros, geralmente com menor extensão espacial, são os mais vulneráveis ao impacto humano em comparação com os tipos de ecossistemas mais profundos, uma vez que estão mais acessíveis às atividades humanas. Mesmo para ecossistemas costeiros, os impactos de estressores climáticos foram determinantes para a mudança dos impactos humanos cumulativos, embora as pressões terrestres e o transporte marítimo também aumentassem essas taxas.
Os resultados da pesquisa indicam que a mitigação climática teria um grande impacto positivo sobre as condições dos ecossistemas marinhos e retardaria ou interromperia significativamente as tendências dos impactos humanos cumulativos em vastas áreas do oceano. Apesar de agora conhecermos as taxas das mudanças dos impactos humanos cumulativos nos oceanos, devemos pensar: até quando esses ecossistemas marinhos podem suportar mais mudanças?
HALPERN, Benjamin S. et al. Recent pace of change in human impact on the world’s ocean. Scientific Reports, v. 9, n. 1, p. 1-8, 2019. Disponível em: <https://www.nature.com/articles/s41598-019-47201-9>. Acesso em: 15 de setembro de 2019.