

Para as espécies que, apesar de terem potencial alimentício, não conhecemos bem, não consumimos com frequência ou usamos apenas uma parte ou preparamos apenas de uma maneira, há um nome especial: PANC – Plantas Alimentícias Não Convencionais. O grupo das PANCs também inclui partes de plantas convencionais que não costumam ser consumidas, por exemplo, se consome a banana, mas não a casca, o palmito e o coração (mangará), ou se consome o mamão como fruta quando maduro, mas não como salada quando verde.
O termo PANC foi criado por Valdelly Knupp, pesquisador que estudou cerca de 1.500 espécies de plantas, incluindo diversos tipos de hortaliças, verduras, raízes, flores e frutos que foram esquecidos ao longo do tempo, mostrou que muitas espécies não tradicionais podem (e devem) enriquecer nossa alimentação (do ponto de vista nutricional e sensorial) e tirar a nossa dieta da monotonia alimentar.
Além disso, as PANCs são plantas bastante comuns, justamente por serem muito resistentes, se propagarem com grande facilidade e se adaptarem a locais onde as plantas convencionais não proliferam. Por isso, podem ser incluídas na alimentação com custo zero ou por um valor muito em conta. Dessa forma, por natureza, elas não precisam de agrotóxicos, o que torna o seu cultivo muito mais ecológico que as plantações comuns. Pela sua resiliência, as PANCs também são espécies muito mais adaptadas às mudanças climáticas, o que as torna alimentos com grande potencial para serem incluídos na dieta do futuro.
Conhecer as PANCs também significa valorizar o que é local. De uma forma geral, valorizamos nossas tradições, costumes e patrimônio cultural, mas infelizmente ainda não conhecemos tão bem a nossa biodiversidade. Se olharmos nossas refeições caseiras, o cardápio nos restaurantes, nas gôndolas dos supermercados e nas feiras, a maior parte dos alimentos são exóticos, pouquíssimos são locais. Precisamos nos lembrar que tudo foi “mato” um dia, até que nossos ancestrais descobriram que certas plantas podemos comer, saudáveis e nutritivas. Tudo é “mato” até que você conheça de perto e saiba o nome!
Felizmente, mais e mais áreas estão estudando e divulgando a importância das PANCs: biologia, agronomia, nutrição, química, farmácia, gastronomia. E uma vez que essa sementinha PANC é plantada no nosso coração, fica difícil não brotar: para divulgar o potencial das PANC para o Brasil e para o mundo, Kinupp escreveu o livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)”, juntamente com Harri Lorenzi. O trabalho de Kinupp é muito importante porque muitas vezes essas plantas espontâneas, que nascem sem serem plantadas, são consideradas ervas daninhas ou invasoras, ou vistas como algo a ser removido e combatido como uma praga.
Porém, essa visão é bastante limitada se levarmos em consideração que estão catalogados centenas de alimentos nutritivos desse tipo no país. Veja o caso da trapoeraba (Commelina spp.), por exemplo: uma única planta pode produzir 10 mil sementes, que podem permanecer dormentes no solo por mais de 20 anos! Imagine quão rentável seria cultivá-la?! Mesmo assim, essa espécie é tida como uma praga pelos agricultores e, em vez de ser vendida, é simplesmente eliminada com agrotóxicos.
Infelizmente, o comércio de PANC como fonte de renda ainda é pouquíssimo explorado. A bertalha (Anredera cordifolia) é um exemplo: você pode comer as folhas e as batatinhas, com usos similares ao da batata-inglesa. Nestas batatas, foi descoberta uma substância que protege o estômago. Então, alguns estrangeiros queriam comprar cerca de duas toneladas, porém não havia ninguém para vender! Isso não é um desperdício?
Um outro exemplo que mostra como o uso econômico dessa PANC foi subestimado: quando uma seca muito forte atingiu o estado do Rio Grande do Sul, trazendo problemas para as plantações de alface, que precisou ser trazida de outras regiões. Se os agricultores tivessem plantado bertalha no lugar de alface, as plantas teriam sobrevivido ao período de estiagem, pois a bertalha é muito mais resistente. E, ainda por cima, não precisariam gastar com agrotóxicos nem contaminar o ambiente com essas substâncias. Precisamos reconhecer a importância dessas espécies não convencionais e explorar o uso destes ingredientes em nossa culinária!
Além disso, é preciso lembrar que algumas PANCs podem ser ingeridas cruas (in natura), na forma de suco ou salada; mas outras precisam ser cozidas, seja porque ficam mais saborosas ou porque são seguras para consumo apenas quando cozidas ou refogadas (como o caruru, a taioba e a ora-pró-nobis). Às vezes, a água do cozimento também precisa ser descartada. Mas isso não acontece apenas com as PANCs: plantas mais tradicionais, como a mandioca-brava ou a castanha de caju, também precisam ser cozidas ou torradas para serem consumidas. Ou seja, esse detalhe não é motivo para ficar com medo de consumir as PANCs: só é preciso conhecimento e cautela para aproveitar o potencial delas ao máximo.
Para evitar contaminação, sempre higienize as PANCs manualmente e deixe-as de molho em solução de cloro por 15 minutos. Uma outra ideia interessante é coletar mudas ou sementes na rua, retirar a maior parte das folhas e plantar novamente em casa, onde poderá crescer com menos contaminação.
Também vale lembrar que existem PANCs cosmopolitas (que estão presentes em diversos países e até continentes) e PANCs endêmicas (exclusivas de uma região específica). Também há PANCs adaptadas para diferentes ambientes (ensolarado, sombreado, arenoso, salino, aquático). Sem falar nos próprios hábitos da população do local: uma mesma planta pode ser considerada convencional em uma região e não convencional em outra. Por isso, é muito importante privilegiar o consumo das que são encontradas na sua região. Lembre-se também que há PANCs sazonais, que podem ou não estar disponíveis, dependendo da época do ano. Lembre que é interessante aproveitar essa sazonalidade justamente para experimentar espécies diferentes.
Que tal aproveitar para conhecer melhor e se beneficiar do uso das plantas alimentícias não-convencionais no seu dia a dia?